Sedenta de Paixão
Já fui carente, indecisa, confusa, perturbada, indiferente, fria, triste, incoerente e incapaz. Fui sedenta de paixão, apaixonada pela ideia de estar apaixonada. Gostar só por gostar, beijar por beijar, amar por amar, querer por querer. Indiferente ao facto de o fazer por amor ou não. Completamente indiferente. Procurar e procurar e voltar a procurar, sem saber o que procurar. Esperar que a loucura pudesse dar pistas. Fazer o que nunca pensei fazer, pensar o que nunca pensei pensar. E apaixonar-me a cada segundo que passava. Por tudo. Pelo sorriso de uma amiga. Pelo gato vagabundo. Pela inocência de uma criança. Por uma ideia absurda. Pelo absurdo. Pelo que havia de fazer. Pelo que já fiz. Pelo agora. Pela minha casa. Pelo meu coelho. Por uma voz. Por um livro. Por um filme. Por uma foto. Pelo palco. Pelas pessoas. Por ti. Ainda sou sedenta de paixão, mas tudo agora assume uns contornos diferentes, exuberantes e analgésicos. Iniciar uma vida igual à outra, mas com novas variáveis, não sabendo de antemão se será melhor que a outra… e como isso é encantador! Tão encantador que chega a permitir que não pense no amanhã. E que o despoletar de algo não se perca por caminhos desconhecidos em que cada sinal se assemelha a um sussurro de amor, em que se permitem desfechos agridoces.