Descobrindo: JAZZ

Maio 17, 2007 at 8:29 am (Espectáculos, Música, Solignator, Sugestões)

Jazz

Nunca tive oportunidade de conhecer Jazz a fundo. Mas já ouvi algumas histórias sobre ele – não muitas, infelizmente, porque o que ouvi chegou-me há relativamente pouco tempo, e só agora me decidi a partir à sua descoberta, numa busca por todas as suas histórias.
Ouvi dizer que nasceu no outro lado do oceano, em Nova Orleães, no início do século que passou. Que veste de preto e de modo formal e ao mesmo tempo desligada. Que tem uma voz rouca e forte e que, encontrando-o na rua, transporta, invariavelmente, um instrumento consigo para onde quer que vá. Já o viram de saxofone, de clarinete ou de trompete, levando consigo numa das mãos um desses instrumentos não num impulso ufano, para o destacar dos restantes como músico que é, mas porque não se sente seguro e satisfeito se não estiver em contacto com a chave da porta para o seu mundo. Sim, porque Jazz vive num mundo secreto para muitos e a música é o modo de chegar a ele, de ganhar passagem, de abrir a porta.
Ouvi também que é recatado, sério, que não fala muito, que o envolve uma melancolia indisfarçável mas inconsciente, como se lhe fosse impossível ser outra coisa, mas que sendo assim, não deixa de ser magnética. Que gosta de noctambular, passeando-se quando a lua já vai alta, porque o inspira. Ouvi dizer que adora dias de chuva e que vive num prédio velho e degradado, com pouca, gasta e outrora sofisticada mobília, no último andar, naquele de águas-furtadas, onde os pingos batem naquela cadência consoladora que a quase todos fascina. Ouvi dizer que os vizinhos se queixam, quando se entrega ao seu saxofone e toca, pela noite dentro, melodias tristes, umas vezes como protesto contra um mundo que lhe sabe a pouco e que não o entende, outras quando a nostalgia de tempos passados é demasiada para a suportar.
Ouvi também que toca piano de improviso, em bares pequenos e a meia-luz, intimistas, e sempre rodeado de pessoas sentadas, de copo na mão que, na penumbra, procuram pequenas janelas para esse mundo de Jazz, para que então se deliciem – numa tranquilidade que não encontram noutro lugar – com as sempre poucas imagens melódicas que o músico lhes revela desse mundo vasto que, sendo só seu, gosta de partilhar… aos poucos e em acessos de inspiração.

Hoje, vou assistir a Jazz ao vivo, e não num desses bares típicos onde costuma tocar, mas de certo que envolto igualmente naquele ambiente propiciador a um grande momento, de grande satisfação e libertação (acho eu e espero mesmo com todas as forças), na Cafetaria Quadrante, do CCB, num espectáculo intitulado “Jazz às Quintas” – iniciativa que se repete nesse dia de semana, todas as semanas. Vou assistir a três músicos que também são esse Jazz que ainda desconheço – um trio de um saxofonista, um trompetista e um pianista chamados: Evan Parker, Herb Robertson e Agustí Fernandez, respectivamente. Acredito que logo venha a saber tudo sobre eles através da sua música.

Por agora, sorrio pela força que o Acaso tem sobre a vida. Pela forma como influencia os caminhos que cada um toma, os novos interesses que uma pessoa ganha e os escapes pelos quais ansiamos sem saber exactamente pelo que ansiamos, mas conhecendo apenas o porquê dessa ansiedade. O Acaso.
Revelou-me a importância desse Jazz, quando me cruzei fortuitamente com ele, num lugar que, na minha ideia pré-concebida de Jazz, não era de esperar encontrá-lo. Não o conhecendo, ouvira o seu nome antes e ouvira pequenas histórias que pemaneceram incompletas até agora, porque não parei ou esperei para ouvir mais, numa altura em que achava que Jazz não era interessante e que não valia a pena ser conhecido. Até o achava monótono. Mas passado algum tempo, depois de alguns gostos maturados, enquanto revivia a história de um Cowboy Bebopcowboy nipónico que viajava pelo espaço, cujas aventuras se aceleravam a um ritmo veloz, complexo e nervoso, levando qualquer um ao entusiasmo, e que terminavam num final, em nada feliz, ao som de algo mais calmo e, a meu ver, profundo – descobri quem e o que era Jazz.

Spike, Bebop Essence

Achei estranho que num anime toda a banda sonora fosse daquele tipo de música (tudo de Jazz) e que, ao mesmo tempo, se revelasse em tantos estilos – dos mais calmos aos de ritmos mais vertiginosos. Até porque o normal é encontrar em anime música tipicamente nipónica, do clássico ao pop.
Jazz… em solo japonês. Por uma qualquer razão, fui surpreendido. E a surpresa fez-me ficar mais curioso e, pela curiosidade, descobri que banda tocava aqueles ritmos. Descobri que fora fundada de propósito para criar a música daquele anime. Descobri o que significa Bebop, depois de o ter reconhecido como um estilo frenético de Jazz apenas de ouvido. Descobri The Seatbelts - nome que segundo os músicos se justifica, tal costuma ser a brutalidade e pujança das suas jam sessions:

Dizem alguns que isto não é Jazz, porque está orquestrado. Mas, bolas! se eu vir algo assim hoje à noite… assim, ao vivo!? De certo que durante meses a fio não vou ouvir mais nada…

2 Comentários

  1. solignator disse,

    Já lá vão uns dias e continuo a achar o mesmo daquele momento de Jazz, de quinta feira: MUITO, mas muito estranho. Free Jazz they say! Mas mim pareceu-me três músicos a tocar cada um para o seu lado…
    Estranho foi ter alguém atrás de mim a dizer: “Bah, que isto é Jazz comercial…” Como comercial? Aquilo fugia ao entendimento da maioria das pessoas que lá se encontrava. Muitos riam-se – desvantagem de ter um público atraído pela oportunidade de uma entrada livre: poucos deviam ser os entendidos de Jazz a assistir à performance de três hilariantes doidos a tocar…
    O pior de tudo foram os risos e o ter que ficar do lado de fora, na esplanada e de pé a assistir… Mesmo chegando meia hora antes, não se arranjou mesa para melhor desfrutar o momento.

  2. YellowDog disse,

    Cool….

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