The Devil Wears Prada
Pronto, pronto… eu sei! E até entendo o porquê deste filme ser daqueles que muita rapaziada rotulará como filme para o sexo oposto. Sei, sem grande esforço, descortinar as razões que tornam este filme numa vítima fácil para que se lhe cole a etiqueta “ATENÇÃO: Filme de gaja – NÃO VER!”. Mas também sei o porquê do uso desse rótulo. E digo-vos o porquê desse mecanismo, porque compreendo-vos – bolas, sou um de vós!
Afinal, qual é o homem… másculo, seguro da sua virilidade, consciente do que está certo e do que está errado em ser-se homem, que está convencido de que gosta de curvas, de chafurdar, de suar, de dizer palavrões…qual é o Homem, assim com H grande, que se entrega a um filme com Prada no título? E ainda por cima, depois de tirar as dúvidas, depois de ter visto o trailer e de ficar com a certeza de que o filme é mesmo sobre moda, roupa e acessórios,… que homem vê este filme? Qual é o homem que ia ver um filme que tivesse um cartaz como este?

Muitos, acredito que veriam este filme na esperança de ver gajas nuas – afinal, é um encadeamento lógico de ideias: moda, roupa, mulheres com roupa, mulheres sem roupa, gajas nuas no sentido mais lato e brejeiro do conceito (com poses e ângulos estranhos, claro está!). Mas também acredito que todos eles, sem excepção, ao fim de dez minutos estariam a perguntar em viva voz: ” ‘Tão, mas as gajas nuas? Que é delas? Não damos com elas!”, desistindo de ver o resto. Acontece que eu vi o filme todo… sem esperanças nenhumas de ver o quer que fosse. E não me arrependo de o ter visto – se calhar esta é a melhor postura para ver filmes. Mas nisto continuo ainda a gostar de curvas. Grande vitória? Não. Vitória apenas? Também não. Vitoriazinha? Nem por isso… porque não é um filme por aí além lamechas, ou sensacionalista, ou uma comédia romântica por definição e nem sequer chega a ser bem sobre moda, pelo que… rapaziada tende calma que nenhuma das vossas dúvidas será posta em teste, que isto não é um Brokeback Mountain. É um filme que se vê muito bem, facilmente, e que a mim me disse mais hoje do que me diria umas semanas antes.
“Bah mas e o rótulo?” Ah sim! que não cheguei a responder concretamente a isso. O rótulo é utilizado no impulso solidário de aconselhar, de partilhar um ensinamento que vai de um homem para outro homem (mesmo que este tenha algumas dúvidas existenciais ou de outro cariz, continua a ser encarado como um um homem, pelos restantes, até haver demasiadas provas em contrário) e que serve de aviso para os mais incautos cinéfilos que tudo vêem e tudo consomem e que defendem sempre esse estranho hábito com o preceito “Não reconhecerás o bom se não conheceres o mau”, entregando-se assim a bons filmes, maus filmes, filmes assim-assim e outros que para alguns são filmes que “dão à volta a cabeça e que te transformam numa gaja…mas com pila!”. E o pior, para muitos, é que esses são os homens menos homens de todos, porque essa entrega pelos cinéfilos é feita numa sala de cinema ou na sala do lar doce lar, com som surround instalado, e com todo o conforto… mas sem gaja! Porque na maioria das vezes, essa entrega é feita a solo porque visionam esses filmes sozinhos, sem moça por perto, o que poderia diminuir os riscos de transformação, da passagem para o middle ground entre o sexo masculino e o femino e que asseguraria de certo, e aos olhos de muito homem, que nada se transformaria no corpo e mente desses cinéfilos, findo o filme.
Eu, por acaso,vi este filme sozinho… enfim, não havia como contrariar a minha natureza, não é? mas também porque escolhi outros filmes menos bons para ver na altura em que este estava em exibição, pelo que tive que recorrer às artes e artimanhas da pirataria e sacá-lo agora para me deliciar com este filme no meu quarto e vá, digamos que… o meu quarto também não é um harém onde dançam odaliscas sedutoras a toda a hora. De vez em vez… lá…hmm, não, nunca aconteceu. Enfim, vi o filme sozinho e não me arrependo!
Isto porquê? Porque o filme retrata a história de uma jovem que se vê confrontada com a vida dura, injusta e vertiginosa do mundo da moda, cujos males e dificuldades parecem ser maldosamente agravados pelas mãos e caprichos da editora da revista (divinalmente interpreta por Meryl Streep, porque aquele cinismo peculiar e arrogância transbordam na personagem) para onde a jovem, completamente alienada daquele mundo até então, se propõe trabalhar, mudando com isso a sua postura e as suas prioridades. Enfim, dir-se-ia que esta pequena sinopse revela este filme como mais do mesmo, sendo até fácil só com isto adivinhar o final: feliz, com a rapariga optando pela família/namorado e não pelo dinheiro, deixando assim a mensagem de que ter muito na carteira não é tudo, que existem coisas mais importantes e que a vida é feita de escolhas e que a melhor das vidas é aquela cujas escolhas foram difíceis de tomar (que bonito paradoxo!). Enfim, é realmente mais do mesmo mas o filme tem a ver com o estado actual da minha vida, porque eu mesmo faço agora por entrar num mundo dissimulado, cínico e competitivo. Enfim, males de ter escolhido gestão e de enfrentar a crueza das entrevistas onde solto tudo o que sou para depois deixar ao critério de um desconhecido se valho ou não a pena, se tenho ou não algum valor… E não muito diferente do que vi no filme, descubro-me também eu a mudar a minha forma de vestir – claro, realçando aqui as distâncias nas comparações com a história do filme – e vejo-me a experimentar fatos, gravatas, sapatos e novos andares e maneiras de sentar, de cumprimentar, de falar, de… estar na vida. E sinceramente, sinceramente? Também não gosto do que vejo…
yoursurprise-bellatio-5 disse,
Dezembro 4, 2011 às 11:23 pm
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