A necessidade de ser miserável

Janeiro 10, 2007 at 11:31 am (Desafogos, Solignator)

O que é que leva duas pessoas a encontrarem-se a partir do… nada? Qual é o objectivo último de criar uma ilusão para depois desfazê-la? Porquê promover o que não existe para então desprezar todo esse esforço e destruir uma ideia ilusória para cair na real? É um contra-senso que duas pessoas se obriguem a desfazer a ilusão, a desiludirem-se. A ilusão é sempre melhor que a realidade e quanto mais tempo esta persista, maior o sentimento de prazer por ela gerada, por esse mistério e incerteza que qualquer ilusão encerra, mesmo que menor seja a satisfação – aquele sentimento de se estar incompleto e de precisar de mais do que se tem, mais do que pensamos que existe mas que não é verdadeiramente. Sacrifique-se, então, a satisfação para o bem maior que é viver iludido.
Pensando um pouco no decorrer das vidas e é sem grande dificuldade que se descobre que as relações de hoje assentam na paradoxal necessidade de ser miserável. E a culpa enreda-se nos hábitos que aqui se ganham, que prendem e que fomentam a solidão real mas não virtual. A um clique de estar acompanhado e um indivíduo acha-se verdadeiramente entre humanos, quando na verdade está só. Encarando um rosto de plástico, vidro e luz mas não um rosto. Por mais que fale, ninguém o ouve a não ser que se expresse pelo idioma que não precisa de dois, mas de um só e que se faz pelo tamborilar de teclas que preenchem o silêncio do ambiente caseiro. Pode até preencher esse ambiente com outros sons que não o seu. Fazer por ouvir a voz de gente que lhe dirá sempre o mesmo, sempre da mesma forma – aquilo a que chamam de música. Mesmo assim, continuará solitário por mais conversas que inicie naquela forma de falar sem se fazer ouvir. E sem encarar uma só pessoa, tudo o que diga fará parte de um hábito que vai nascendo: falar para ninguém, falar sozinho… E é estranho que não se internem estas pessoas num qualquer instituto que os cure. Qual é o sentido de falar para um ninguém?
Portanto, é desta forma que o indivíduo se torna literalmente individual mas não independente – afinal, a sua dependência vai-se revelando em cada dia que aqui passa. Entenda-se que este se vai esquecendo de que tudo o que viva a partir daqui, viverá sempre sozinho. Se lhe contarem uma piada, rir-se-á sozinho. Se o espicaçarem com palavras inaudíveis, irritar-se-á sozinho. E se lhe disserem que o amam, apesar desse amor não poder existir, poderá sentir solitariamente o acelerar do que está no peito, mas isso não será mais de que um efeito sem causa, porque se o compasso cardíaco tiver outro ritmo, vendo bem a coisa,… bate mais depressa por nada. No entanto não é estranho, ou melhor!, não é anormal ou pouco frequente criarem-se encontros a partir dessa coisa-nenhuma – em que tu me inventas um rosto e em que eu te dou o teu – naquela triste tentativa de provar que essa ilusão é sempre melhor que o rosto que realmente tens e que eu realmente tenho. Mas a parte doente disto é que esses novos eremitas, donos das montanhas que são os seus quartos, os seus eremitérios, depois, na maior parte das vezes, se resignam a relações fortuitas, mesmo depois de desiludidos e mesmo sabendo que tudo o que possam ter ali saiba depois a pouco, para que ganhem novos apetites para dispender esforços noutra ilusão, já que a primeira morreu. Para que os esforços em provar a necessidade de viver iludido não tenham sido em vão. É ou não é uma vida miserável?

10 Comentários

  1. angiesoul disse,

    De facto…

  2. Sybil disse,

    Não… não é miserável, a não ser que tu queiras mesmo que ela se torne miserável… O que leva duas pessoas a encontrarem-se a partir do nada é a esperança… é a criação de uma ilusão que poderá acabar por se tornar numa realidade, na melhor das hipóteses. Não caias já na realidade… Let it flow…

  3. solignator disse,

    Curiosamente quando escrevi isto, não escrevia sobre mim. Mas sobre ti, Sybil. A minha necessidade de ser miserável segue outras instruções. E não assenta na ‘net. Estar aqui é o fim e não o meio. E perdoa se foi um erro de interpretação da tua vida, mas no teu caso este é o teu meio para te sentires miserável.

    ERRATA: É a criação de uma ilusão que acabará por se tornar uma realidade, em qualquer uma das hipóteses. Seja na melhor ou na pior das duas, correspondendo ou não à ilusão.

  4. globovox.com disse,

    As pessoas gostam de jogar e virtual é como um jogo.
    Num tempo que existe violência nas ruas o virtual é uma benção de Deus. E nesse jogo através de um oi vai crescendo algo maravilhoso que com o tempo tornasse algo grandioso e real. Grandes amores nasceram assim. Se alguém vê como um nada é por que a depressão já impera nos delírios desse internalta levando-o a destruir uma coisa ainda com solução. Se um encontro virtual é uma desilusão, é por que os dois trazem no gens a própria destruição. Sempre do outro lado terá alguém disposto a dividir alguma alegria ou esperando uma frase animadora. Existe pessoas tímidas que não teriam coragem de chegar numa conversa, mas pelo virtual conseguem dar frases que podem acalentar alguém numa solidão e com isso receber outra frase em troca. Se a pessoa traz algo de bom dentro dela sempre conseguira mais que um monitor e luzes na solidão, através dos MSNs, telefonemas e trocas de segredos, pois é através do telefone que as pessoas se abrem mais do que se estivessem cara a cara. O começo de um amor pode ser no tamborilar de um teclado. Se é um som solitário na noite a pessoa nem percebe se é um canto triste, pois o envolvimento vai se tornando alegre e bem vindo conforme aumenta a troca de idéias. O que seria mais útil, alegre e aceitável a amizade virtual ou a novela de todo dia num sofá solitário? Se quem tecla for egoísta será como um Louva Deus fêmea que na primeira oportunidade come a cabeça do macho e fica solitária novamente. Pessoa egoísta sem coração qualquer coisa que faça provocara o próprio enterro.

    Pode existir pessoa que nunca admitira que está na solidão matando cachorro a grito, pois nunca descerá do pedestal que construiu numa ilusão para a sobrevivência da própria soberba. E ela acha que todos podem ser internados, mas ela mesma nunca. Ela só vê que os outros precisam de internação e cura, ela que perde dias e dias diante de um monitor ainda não caiu a ficha. Ela fala para ninguém e acha que os outros falam sozinhos. Pobre criatura, mas não podemos relaxar a guarda, pois ela é um louva deus fêmea e solitário pela escolha que fez quando resolveu tratar os outros como inferiores. Ela fala e fala dos outros mais está em situação pior, passa dias e horas da maneira que diz rejeitar. Solitária no lar e na Internet. Nada faz ela dar calor humano e receber. Em fim é uma desvairada pensando que as pessoas não vivem além do virtual. Pensa que todos ficam como ela patética diante do monitor quando tudo se apaga pensando que todos vão dormir. Ela não pensa que as pessoas namoram, dançam e passeiam. Quando uma luz verde se acende seu coração acelera pensando que vai ter alguém para implicar por que só assim alguém lhe dirige a palavra e ela se sente viva novamente. Ela vem com todo o fôlego para inventar mil histórias lindas, mas como a verdade esta longe a história fica sem atrativo. Vive uma vida miserável sem um alento, mas só ela se basta por egoísmo, cinismo e hipocrisia. Não vive, vegeta nas sombras da própria loucura e delírio. Achando que ela não faz parte do mundo que tanto deseja. Penando e contando os minutos…
    É mais triste quem gosta de ler e acredita na idéia que o virtual e a Internet é uma vida miserável, ela esta enleada na idéia deformada do escritor decadente.

  5. globovox.com disse,

    Escrevi esse meu comentário também em outro lugar para uma pessoa que adorou o texto “A necessidade de ser miserável”, ela deve ter se sentido como parte da miséria.

  6. solignator disse,

    Não é que não tenha resposta a esse ataque subliminar ao autor do post que serve de tema para o debate de mais do mesmo. Sinceramente, não tenho é vontade de discutir quem é o verdadeiro miserável: se os que aqui se perdem em vidas de pouca monta ou se o miserável é quem acusa os outros de uma vida de miséria. Porque é simples e chega-se já ao consenso: somos todos miseráveis. Uns gostam de ser miseráveis, outros não; uns tentam escapar a esse dia-a-dia e outros têm gozo em sê-lo, porque lhes dá algum significado e não uma vida banal. Por isso, poupai-me gente! de desperdiçar mais tempo nisto… O raio do post é um mero desabafo de quem não teve nada para fazer…

  7. solignator disse,

    By the way… desprezo brasileiros…

  8. globovox.com disse,

    Solignator escreveu o texto e :
    Por isso, poupai-me gente! de desperdiçar mais tempo nisto… O raio do post é um mero desabafo de quem não teve nada para fazer…

    Por que você escreveu se não quer comentário?
    Então não escrevesse. De graças a Deus que alguém viu e está comentando.
    Você queria que ninguém visse e ninguém comentasse? Se não é para ser visto por que ter um blog? Você prefere ser ignorado?
    Para mim tanto faz quem é o miserável para você. Talvez você estava atacando uma pessoa só e queria que só ela lesse? Textos são para serem comentados. Mas que idéia a sua escrever e depois fica dando uma de doce. Talvez a sua intenção não deu certo. Será que o tiro saiu pela culatra? Então vai desabafar em outro lugar se não quer gente lendo e nem comentando. Cada uma que existe. Talvez você tenha alguma louca razão. Está meio perdido. Tá bom. Tchau

  9. Sybil disse,

    “Sinceramente, não tenho é vontade de discutir quem é o verdadeiro miserável: se os que aqui se perdem em vidas de pouca monta ou se o miserável é quem acusa os outros de uma vida de miséria.”
    És tu o miserável… se lhe queres chamar assim, e és assim porque o queres. E já agora… não te perdeste já tu em vida de pouca monta? Também eu me perdi… várias vezes… mas também se nunca me tivesse perdido nunca teria encontrado o que tenho hoje. No meio de tudo isto… és tu a banalidade, sabes porquê? Porque é banal ser-se infeliz.

  10. Marli disse,

    Qual o adolescente que não adora sentir-se infeliz, não compreendido, mal amado? Não é a ‘net’ um bom caminho para isto? Podes criar alguém que não és mas queres ser… podes testar-te e testar os outros… Podes ter inúmeras desilusões seguidas.. É só fechar a janela e abrir outra algures… Qual o mal disto?!

    Ser miserável é achar que a realidade é isto, ou se chega a ela por isto…

    Acordar… sair da toca é um começo… Conhecer pessoas reais ajuda a crescer! Na realidade não podes fechar a janela ou bloquear só porque não te apatece encarar! Dás a cara! e… curioso… ves que até és capaz… cresces… quando dás conta não tens a necessidade de tentar ser alguém… És alguém que aprendeste a respeitar e apreciar… E mesmo que tudo caia vais ser feliz… porque gostas de ser quem és!
    Ser-se infeliz ou miserável é fácil…

    Mas ser-se feliz também não é assim tão difícil, pois não? =) E somos pessoas reais… numa vida real… (com luas, golfinhos, leões marinhos, praias à mistura…)
    Vitinho mostra-me… (que eu mostro-te o que já encontrei)

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